Tempo em Setúbal

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sábado, 24 de setembro de 2011

A Noite É Muito Escura - Alberto Caeiro


    • Substituindo ele por ela,, embora me importe pois gostasse que a luz continue acesa e aquela mulher tão (ir)real a existirnuma presnça/presente (VN)

      A Noite É Muito Escura

      É noite. 
      A noite é muito escura. Numa casa a uma grande 
      distância
      Brilha a luz duma janela.
      Vejo-a, e sinto-me humano dos pés à cabeça.
      É curioso que toda a vida do indivíduo que ali mora, 
      e que não sei quem é,
      Atrai-me só por essa luz vista de longe.
      Sem dúvida que a vida dele é real e ele tem cara, gestos, família e profissão.

      Mas agora só me importa a luz da janela dele.
      Apesar de a luz estar ali por ele a ter acendido,
      A luz é a realidade imediata para mim.
      Eu nunca passo para além da realidade imediata.
      Para além da realidade imediata não há nada.
      Se eu, de onde estou, só veio aquela luz,
      Em relação à distância onde estou há só aquela luz.
      O homem e a família dele são reais do lado de lá da janela.
      Eu estou do lado de cá, a uma grande distância.
      A luz apagou-se.
      Que me importa que o homem continue a existir?

      Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
      Heterónimo de Fernando Pessoa

sábado, 7 de maio de 2011

Todos os Dias ... - Alberto Caeiro

FERNANDO PESSOA
( ALBERTO CAEIRO )

(23-7-1930)
.
Todos os dias agora acordo com alegria e pena.
Antigamente acordava sem sensação nenhuma: acordava.
Tenho alegria e pena porque perco o que sonho.
E posso estar na realidade onde está o que sonho.
Não sei o que hei de fazer das minhas sensações.
Não sei o que hei de ser comigo sòzinho.
Quero que ela me diga qualquer coisa para eu acordar de novo.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Vai alta no céu a lua da Primavera - Alberto Caeiro

FERNANDO PESSOA
( ALBERTO CAEIRO )

Vai alta no céu a lua da Primavera 
Penso em ti e dentro de mim estou completo. 
Corre pelos vagos campos até mim uma brisa ligeira. 
Penso em ti, murmuro o teu nome; e não sou eu: sou feliz. 
Amanhã virás, andarás comigo a colher flores pelo campo, 
E eu andarei contigo pelos campos ver-te colher flores. 
Eu já te vejo amanhã a colher flores comigo pelos campos, 
Pois quando vieres amanhã e andares comigo no campo a colher flores, 
Isso será uma alegria e uma verdade para mim.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Num meio-dia de fim de primavera - Alberto Caeiro

FERNANDO PESSOA
( ALBERTO CAEIRO )

Num meio-dia de fim de primavera  
Tive um sonho como uma fotografia. 
Vi Jesus Cristo descer à terra. 
Veio pela encosta de um monte 
Tornado outra vez menino, 
A correr e a rolar-se pela erva 
E a arrancar flores para as deitar fora 
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu. 
Era nosso demais para fingir 
De segunda pessoa da Trindade. 
No céu era tudo falso, tudo em desacordo 
Com flores e árvores e pedras. 
No céu tinha que estar sempre sério 
E de vez em quando de se tornar outra vez homem 
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer 
Com uma coroa toda à roda de espinhos 
E os pés espetados por um prego com cabeça, 
E até com um trapo à roda da cintura 
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe 
Como as outras crianças. 
O seu pai era duas pessoas 
Um velho chamado José, que era carpinteiro, 
E que não era pai dele; 
E o outro pai era uma pomba estúpida, 
A única pomba feia do mundo 
Porque não era do mundo nem era pomba. 
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala 
Em que ele tinha vindo do céu. 
E queriam que ele, que só nascera da mãe, 
E nunca tivera pai para amar com respeito, 
Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir 
E o Espírito Santo andava a voar, 
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três. 
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido. 
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz 
E deixou-o pregado na cruz que há no céu 
E serve de modelo às outras. 
Depois fugiu para o sol 
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo. 
É uma criança bonita de riso e natural. 
Limpa o nariz ao braço direito, 
Chapinha nas poças de água, 
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as. 
Atira pedras aos burros, 
Rouba a fruta dos pomares 
E foge a chorar e a gritar dos cães. 
E, porque sabe que elas não gostam 
E que toda a gente acha graça, 
Corre atrás das raparigas pelas estradas 
Que vão em ranchos pela estradas 
com as bilhas às cabeças 
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo. 
Ensinou-me a olhar para as cousas. 
Aponta-me todas as cousas que há nas flores. 
Mostra-me como as pedras são engraçadas 
Quando a gente as tem na mão 
E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus. 
Diz que ele é um velho estúpido e doente, 
Sempre a escarrar no chão 
E a dizer indecências. 
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia. 
E o Espírito Santo coça-se com o bico 
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as. 
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica. 
Diz-me que Deus não percebe nada 
Das coisas que criou -
"Se é que ele as criou, do que duvido" - 
"Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória, 
Mas os seres não cantam nada. 
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada, 
E por isso se chamam seres." 
E depois, cansados de dizer mal de Deus, 
O Menino Jesus adormece nos meus braços 
e eu levo-o ao colo para casa.
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro. 
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava. 
Ele é o humano que é natural, 
Ele é o divino que sorri e que brinca. 
E por isso é que eu sei com toda a certeza 
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina 
É esta minha quotidiana vida de poeta, 
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre, 
E que o meu mínimo olhar 
Me enche de sensação, 
E o mais pequeno som, seja do que for, 
Parece falar comigo.
A Criança Nova que habita onde vivo 
Dá-me uma mão a mim 
E a outra a tudo que existe 
E assim vamos os três pelo caminho que houver, 
Saltando e cantando e rindo 
E gozando o nosso segredo comum 
Que é o de saber por toda a parte 
Que não há mistério no mundo 
E que tudo vale a pena.
A Criança Eterna acompanha-me sempre. 
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando. 
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons 
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro 
Na companhia de tudo 
Que nunca pensamos um no outro, 
Mas vivemos juntos e dois 
Com um acordo íntimo 
Como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas 
No degrau da porta de casa, 
Graves como convém a um deus e a um poeta, 
E como se cada pedra 
Fosse todo um universo 
E fosse por isso um grande perigo para ela 
Deixá-la cair no chão.
Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens 
E ele sorri, porque tudo é incrível. 
Ri dos reis e dos que não são reis, 
E tem pena de ouvir falar das guerras, 
E dos comércios, e dos navios 
Que ficam fumo no ar dos altos-mares. 
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade 
Que uma flor tem ao florescer 
E que anda com a luz do sol 
A variar os montes e os vales, 
E a fazer doer nos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o. 
Levo-o ao colo para dentro de casa 
E deito-o, despindo-o lentamente 
E como seguindo um ritual muito limpo 
E todo materno até ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma 
E às vezes acorda de noite 
E brinca com os meus sonhos. 
Vira uns de pernas para o ar, 
Põe uns em cima dos outros 
E bate as palmas sozinho 
Sorrindo para o meu sono.
Quando eu morrer, filhinho, 
Seja eu a criança, o mais pequeno. 
Pega-me tu ao colo 
E leva-me para dentro da tua casa. 
Despe o meu ser cansado e humano 
E deita-me na tua cama. 
E conta-me histórias, caso eu acorde, 
Para eu tornar a adormecer. 
E dá-me sonhos teus para eu brincar 
Até que nasça qualquer dia 
Que tu sabes qual é.
Esta é a história do meu Menino Jesus. 
Por que razão que se perceba 
Não há de ser ela mais verdadeira 
Que tudo quanto os filósofos pensam 
E tudo quanto as religiões ensinam?

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Como quem num dia de Verão - Alberto Caeiro


FERNANDO PESSOA
( ALBERTO CAEIRO )

Como quem num dia de Verão abre a porta de casa 
E espreita para o calor dos campos com a cara toda, 
Às vezes, de repente, bate-me a Natureza de chapa 
Na cara dos meus sentidos, 
E eu fico confuso, perturbado, querendo perceber 
Não sei bem como nem o quê... 
Mas quem me mandou a mim querer perceber? 
Quem me disse que havia que perceber?
Quando o Verão me passa pela cara 
A mão leve e quente da sua brisa, 
Só tenho que sentir agrado porque é brisa 
Ou que sentir desagrado porque é quente, 
E de qualquer maneira que eu o sinta, 
Assim, porque assim o sinto, é que é meu dever senti-lo...

sábado, 23 de abril de 2011

Ontem à tarde - Alberto Caeiro

FERNANDO PESSOA
( ALBERTO CAEIRO )

Ontem à tarde um homem das cidades 
Falava à porta da estalagem. 
Falava comigo também. 
Falava da justiça e da luta para haver justiça 
E dos operários que sofrem, 
E do trabalho constante, e dos que têm fome, 
E dos ricos, que só têm costas para isso. 
E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos 
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia 
O ódio que ele sentia, e a compaixão 
Que ele dizia que sentia.
(Mas eu mal o estava ouvindo. 
Que me importam a mim os homens 
E o que sofrem ou supõem que sofrem? 
Sejam como eu — não sofrerão.
Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros, 
Quer para fazer bem, quer para fazer mal. 
A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos. 
Querer mais é perder isto, e ser infeliz.)
Eu no que estava pensando 
Quando o amigo de gente falava 
(E isso me comoveu até às lágrimas), 
Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos 
A esse entardecer 
Não parecia os sinos duma capela pequenina 
A que fossem à missa as flores e os regatos 
E as almas simples como a minha.
(Louvado seja Deus que não sou bom, 
E tenho o egoísmo natural das flores 
E dos rios que seguem o seu caminho 
Preocupados sem o saber 
Só com florir e ir correndo. 
É essa a única missão no Mundo, 
Essa — existir claramente, 
E saber faze-lo sem pensar nisso.
E o homem calara-se, olhando o poente. 
Mas que tem com o poente quem odeia e ama?

quinta-feira, 21 de abril de 2011

No entardecer - Alberto Caeiro

FERNANDO PESSOA
( ALBERTO CAEIRO )

No entardecer dos dias de Verão, às vezes, 
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece 
Que passa, um momento, uma leve brisa... 
Mas as árvores permanecem imóveis 
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão, 
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria... 
Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem! 
Fôssemos nós como devíamos ser 
E não haveria em nós necessidade de ilusão ... 
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida 
E nem repararmos para que há sentidos ...
Mas graças a Deus que há imperfeição no Mundo 
Porque a imperfeição é uma cousa, 
E haver gente que erra é original, 
E haver gente doente torna o Mundo engraçado. 
Se não houvesse imperfeição, havia uma cousa a menos, 
E deve haver muita cousa 
Para termos muito que ver e ouvir

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Li hoje quase duas páginas - Alberto Caeiro

FERNANDO PESSOA
( ALBERTO CAEIRO )

Li hoje quase duas páginas 
Do livro dum poeta místico, 
E ri como quem tem chorado muito. 
Os poetas místicos são filósofos doentes, 
E os filósofos são homens doidos.
Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem 
E dizem que as pedras têm alma 
E que os rios têm êxtases ao luar.
Mas flores, se sentissem, não eram flores, 
Eram gente; 
E se as pedras tivessem alma, eram cousas vivas, não eram pedras; 
E se os rios tivessem êxtases ao luar, 
Os rios seriam homens doentes.
É preciso não saber o que são flores e pedras e rios 
Para falar dos sentimentos deles. 
Falar da alma das pedras, das flores, dos rios, 
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos. 
Graças a Deus que as pedras são só pedras, 
E que os rios não são senão rios, 
E que as flores são apenas flores.
Por mim, escrevo a prosa dos meus versos 
E fico contente, 
Porque sei que compreendo a Natureza por fora; 
E não a compreendo por dentro 
Porque a Natureza não tem dentro; 
Senão não era a Natureza.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Esta tarde a trovoada caiu - Alberto Caeiro

FERNANDO PESSOA
( ALBERTO CAEIRO )

Esta tarde a trovoada caiu 
Pelas encostas do céu abaixo 
Como um pedregulho enorme... 
Como alguém que duma janela alta 
Sacode uma toalha de mesa, 
E as migalhas, por caírem todas juntas, 
Fazem algum barulho ao cair, 
A chuva chovia do céu 
E enegreceu os caminhos ... 
Quando os relâmpagos sacudiam o ar 
E abanavam o espaço 
Como uma grande cabeça que diz que não, 
Não sei porquê — eu não tinha medo — 
pus-me a rezar a Santa Bárbara 
Como se eu fosse a velha tia de alguém... 
Ah! é que rezando a Santa Bárbara 
Eu sentia-me ainda mais simples 
Do que julgo que sou... 
Sentia-me familiar e caseiro 
E tendo passado a vida 
Tranqüilamente, como o muro do quintal; 
Tendo idéias e sentimentos por os ter 
Como uma flor tem perfume e cor...
Sentia-me alguém que nossa acreditar em Santa Bárbara... 
Ah, poder crer em Santa Bárbara!
(Quem crê que há Santa Bárbara, 
Julgará que ela é gente e visível 
Ou que julgará dela?)
(Que artifício! Que sabem 
As flores, as árvores, os rebanhos, 
De Santa Bárbara?...
Um ramo de árvore, 
Se pensasse, nunca podia 
Construir santos nem anjos... 
Poderia julgar que o sol 
É Deus, e que a trovoada 
É uma quantidade de gente 
Zangada por cima de nós ... 
Ali, como os mais simples dos homens 
São doentes e confusos e estúpidos 
Ao pé da clara simplicidade 
E saúde em existir 
Das árvores e das plantas!)
E eu, pensando em tudo isto, 
Fiquei outra vez menos feliz... 
Fiquei sombrio e adoecido e soturno 
Como um dia em que todo o dia a trovoada ameaça 
E nem sequer de noite chega.

domingo, 17 de abril de 2011

Bendito seja o mesmo sol de outras terras - Albero Caeiro

FERNANDO PESSOA
( ALBERTO CAEIRO )

Bendito seja o mesmo sol de outras terras 
Que faz meus irmãos todos os homens 
Porque todos os homens, um momento no dia, o olham como eu, 
E, nesse puro momento 
Todo limpo e sensível 
Regressam lacrimosamente 
E com um suspiro que mal sentem 
Ao homem verdadeiro e primitivo 
Que via o Sol nascer e ainda o não adorava. 
Porque isso é natural — mais natural 
Que adorar o ouro e Deus 
E a arte e a moral ...

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Ao Entardecer - Alberto Caeiro

FERNANDO PESSOA
( ALBERTO CAEIRO )

Ao entardecer, debruçado pela janela, 
E sabendo de soslaio que há campos em frente, 
Leio até me arderem os olhos 
O livro de Cesário Verde. 
Que pena que tenho dele! 
Ele era um camponês 
Que andava preso em liberdade pela cidade. 
Mas o modo como olhava para as casas, 
E o modo como reparava nas ruas, 
E a maneira como dava pelas cousas, 
É o de quem olha para árvores, 
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando 
E anda a reparar nas flores que há pelos campos ...
Por isso ele tinha aquela grande tristeza 
Que ele nunca disse bem que tinha, 
Mas andava na cidade como quem anda no campo 
E triste como esmagar flores em livros 
E pôr plantas em jarros...

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Acordo de noite subitamente, - Albero Caeiro

FERNANDO PESSOA
( ALBERTO CAEIRO )

Acordo de noite subitamente, 
E o meu relógio ocupa a noite toda. 
Não sinto a Natureza lá fora. 
O meu quarto é uma cousa escura com paredes vagamente brancas. 
Lá fora há um sossego como se nada existisse. 
Só o relógio prossegue o seu ruído. 
E esta pequena cousa de engrenagens que está em cima da minha mesa 
Abafa toda a existência da terra e do céu... 
Quase que me perco a pensar o que isto significa, 
Mas estaco, e sinto-me sorrir na noite com os cantos da boca, 
Porque a única cousa que o meu relógio simboliza ou significa 
Enchendo com a sua pequenez a noite enorme 
É a curiosa sensação de encher a noite enorme 
Com a sua pequenez
.
....

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Domingo irei - Alberto Caeiro

Poema

Domingo Irei
.
.
  Domingo irei para as hortas na pessoa dos outros,
Contente da minha anonimidade.
Domingo serei feliz — eles, eles...
Domingo...
Hoje é quinta-feira da semana que não tem domingo...
Nenhum domingo. —
Nunca domingo. —
Mas sempre haverá alguém nas hortas no domingo que vem.
Assim passa a vida,
Sutil para quem sente,
Mais ou menos para quem pensa:
Haverá sempre alguém nas hortas ao domingo,
Não no nosso domingo,
Não no meu domingo,
Não no domingo...
Mas sempre haverá outros nas hortas e ao domingo!

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

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quinta-feira, 29 de abril de 2010

Eu não Quero o Presente, Quero a Realidade - Alberto Caeiro

Poema

Eu não Quero o Presente, Quero a Realidade
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Vive, dizes, no presente,
Vive só no presente.

Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede.

O que é o presente?
É uma cousa relativa ao passado e ao futuro.
É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem.
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.

Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas
                         como cousas.

Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.

Eu nem por reais as devia tratar.
Eu não as devia tratar por nada.

Eu devia vê-las, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.
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Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando Pessoa

Data: 2008/09/03 08:11
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Ilusionismo Quadrilátero

ILUSIONISMO
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* Victor Nogueira .
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Ele há um tempo p’ra tudo na vida
Cantando hora, minuto, segundo;
Por isso sempre existe uma saída
Enquanto nós estivermos neste mundo.
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Há um tempo para não fenecer
Há mar, sol, luar e aves com astros
Há uma hora p'ra amar ou morrer
E tempo para não se ficar de rastos.
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P'ra isso e' preciso sabedoria
Em busca dum bom momento, oportuno,
Com ar, bom vinho, pão e cantoria,
Sem se confundir a nuvem com Juno.
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1991.08.11 - SETUBAL