Tempo em Setúbal

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segunda-feira, 27 de abril de 2015

As chuvas de Maio e as lojas gourmet, por antónio sousa homem

“As lojas gourmet são as perfumarias de outrora, discretas, cheias de luxos sugestivos, cobertas de auras misteriosas”

Por António Sousa Homem

As primeiras chuvas de Maio foram já tépidas e não obrigaram à alteração no guarda-roupa de Moledo, que é geralmente sensato. Ao contrário dos hábitos do velho Doutor Homem, meu pai, a "roupa de meia estação" (um eufemismo para falar das transições entre as sucessivas guerras dos Elementos) caiu hoje em desuso. A minha sobrinha Maria Luísa, com pesar e algum drama, atribui a catástrofe às alterações climáticas; esquecia-me de dizer que ela pensa que se trata de uma catástrofe. Tem alguma razão: houve peças que saíram do guarda-roupa e nunca mais foram guardadas de ano para ano, não só porque as pessoas desejaram vestuário mais "prático" (um absurdo) mas também porque as estações do ano dão saltos abruptos para o colo umas das outras até se confundirem ou até se separarem definitivamente. Com isso, as pessoas perderam bastante – as ‘toilettes’ de antigamente desapareceram, a pose de antigamente (estudada, frívola, ‘snob’, geralmente elegante) também desapareceu, e o clima perdeu importância desde que deixámos de usar chapéu, abafos irregulares e fazendas de alfaiate.

De qualquer modo, a minha sobrinha chegou a Moledo na semana passada acompanhada de um ligeiro granizo das serras – que lembrou o descontrole da nossa atmosfera e a desconfiança eterna a que em casa eram votados os cavalheiros da meteorologia, sisudos e de voz grave, esclarecida. Ela trouxe produtos de uma loja gourmet de Braga – fumados escolhidos, compotas perfumadas, bolachas de latitudes longínquas, um vinho húngaro, entre outras primícias. Parecia a chegada do meu Tio Alberto, no regresso das suas viagens misteriosas. O vinho húngaro, o Tokai, pertence à nossa memória, e os seus atributos prendiam-se sempre com a suspeita de amores imaginários com princesas longínquas ou com a existência de paixões mirabolantes que nunca teriam romance escrito à altura. ~

As lojas gourmet são as perfumarias de outrora, discretas, cheias de luxos sugestivos, cobertas de auras misteriosas. Dona Elaine desconfia, naturalmente; ela acha que a compota de groselha é uma invenção hostil à nossa compota de amoras, carregada de uma saudável carga de açúcares amarelos transformados em xarope perfumado. Os fumados de arenque parecem-lhe sardinha de barrica, a comida para pobres dos seus primos dos Arcos; e quanto aos vinhos doces, de sobremesa, ela sugere que o vinho abafado ou as ginjas seculares de Ponte da Barca cumprem perfeitamente a sua função. Por mim, contive-me. À falta de roupa de meia estação e de um boné de ‘tweed’, a ideia de uma loja gourmet não estava mal. Era falsa, sim; mas compensava...

Ler mais em: http://www.cmjornal.xl.pt/domingo/detalhe/as-chuvas-de-maio-e-as-lojas-gourmet.html

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

António Sousa Homem ~ Do mês de Fevereiro às regras de vestuário


Correio da Manhã
Em certos aspectos

Do mês de Fevereiro às regras de vestuário

“Os ‘cardigans’ do velho doutor Homem, meu pai, eram famosos quer no escritório quer em casa, usados no recato do seu ambiente de trabalho ou de recolhimento”
Por:António Sousa Homem

Todos os anos Fevereiro traz a chuva, o frio e o Entrudo. A máxima não é popular, mas aplica-se com propriedade a um mês tão cheio de susceptibilidades. A falar verdade, o Inverno verdadeiro, o Inverno de nome e renome, é o de Fevereiro, quando despontam – muito ao largo, muito ao longe – as primeiras ameaças de um desejo de Primavera. Só essa condição permite que um mês mais curto pareça verdadeiramente longo e interminável.
O velho Doutor Homem não gostava de Fevereiro e atribuía--lhe os defeitos do Entrudo, do Inverno e do frio – antes que chegasse a sua bem amada "meia estação", o período em que um dândi à sua medida poderia usar o guarda-roupa mais sofisticado de todos os alfaiates da Baixa portuense. Penso nisso por causa do cinema. Periodicamente, em noites que começam mais cedo, aproveito para rever alguns filmes que recordo da minha idade adulta ou da minha juventude (ambas se misturam com muita bonomia, uma vez que a família pensa que nunca tive juventude).
Nessa altura, filmes dos anos quarenta e dos anos cinquenta, ou da primeira metade dos anos sessenta, os actores vestiam razoavelmente bem. Não era necessário frequentar Saville Row para o perceber. As fotografias de família ou os retratos de rua mostravam sempre um certo rigor no vestuário que, depois, desapareceu com a informalidade, as democracias e as estrelas do ié-ié.
Vestir "com certa razoabilidade" era uma regra seguida nesta velha família de advogados portuenses e de minhotos convertidos à parcimónia. As regras eram flutuantes, mas apreciáveis, com uma série de imposições para cada ocasião, para cada hora do dia e para cada estação do ano.
Os ‘cardigans’ do velho Doutor Homem, meu pai, eram famosos quer no escritório quer em casa, usados no recato do seu ambiente de trabalho ou de recolhimento; mas nada nos impressionava tanto (éramos três rapazes atrevidos e vaidosos) como aquele cuidado ligeiro que fazia dele tanto um mestre de Cambridge (onde ele teve a ilusão de poder ter vivido, se fosse o inglês que nunca chegou a ser) como um boémio de Paris (o que acredito que chegou a ser). O Porto manteve sempre essa correcção que estava longe de ser considerado um acto de vaidade mas, pelo contrário, de respeito pela rua e pelos concidadãos, que não nos viam em chinelos e roupa por engomar.
Nesses filmes de outrora, funcionários discretos ou gente rica da América vestiam com uma elegância que ainda hoje me distrai da própria história que o filme conta. Todos sabemos que o hábito não faz o monge, mas ajuda bastante.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Da Água de Melgaço à melancolia de Verão



Em certos aspectos
31 Julho 2011


“Ou um passeio pela Galiza a fim de conhecer as rotas de piratas refugiados em Finisterra, o rigor matemático da geografia de El Ferrol”
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Por:António Sousa Homem

A melancolia de Verão é uma coisa para velhos. O corpo é já uma espécie de desinência dispensável e pouco disponível, cansada da repetição ou do regresso das estações do ano; o Estio, esse sinónimo para eruditos desajustados à realidade, traz consigo o calor, a família em férias e um bando de adolescentes que povoa Moledo transformando o recato do povoado num acampamento de seres bronzeados que lêem os jornais, romances e as nuvens da meteorologia.
O casario, outrora tranquilo e coberto pelo manto de nevoeiro matinal que protege a vegetação e o carácter discreto dos seus moradores, está agora cercado de visitantes. Uma vez por outra, a minha sobrinha Maria Luísa leva-me a Caminha, Cerveira ou a Vila Praia de Âncora para que o meu território não esteja tão limitado.
Na semana passada, descobrimos uma esplanada, em Caminha, onde se podia beber Água de Melgaço. O pormenor pode não ter importância, mas a mim comove-me; a Água de Melgaço é uma evocação do passado, com as suas garrafas fora de moda, o seu nome esquecido, a evocação de dietas de Verão para contrabalançar os desvarios de refeições que desmiolam o equilíbrio alimentar das famílias.
Podia mencionar, ano a ano, a memória de todos os prazeres minúsculos que atentaram contra a sensatez da minha vida: os passeios de barco no rio Minho, imitando as garotices de Tom Sawyer e Huckleberry Finn – ou as escaladas à casa do Tio Alberto, o bibliófilo de São Pedro de Arcos, escondido do mundo como um astrónomo que recusa contar os seus segredos celestes. Ou um romance de Verão, perdido nos álbuns de fotografias que nunca foram reunidas com medo de compromissos ou apenas do futuro. Ou um passeio pela Galiza a fim de reconhecer as rotas de piratas refugiados em Finisterra, o rigor matemático da geografia de El Ferrol, as amêijoas de Villagarcia de Arousa, as ostras de Ribadeo (uma das glórias literárias do Tio Alberto), as livrarias de Santiago de Compostela com as suas fachadas de granito e os seus esconderijos de há um século.
O Verão do meu Minho litoral tinha ainda as suas romarias que despontavam no calendário como uma obrigação secular, passada de geração em geração como um testemunho de devoção fora de moda. Só o velho Doutor Homem, meu pai, permanecia como uma excepção: ele lia os jornais do costume, na sua varanda de Ponte de Lima. Nada o demovia da ideia de que o mundo corria para lá do Minho, o que era uma ilusão que ninguém compreendia. Quando o Verão anunciava o seu fim, com as primeiras vindimas, ele limitava--se a olhar as montanhas sem uma ponta de melancolia.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O começo do Verão em pleno mar António Sousa Homem


 

Em certos aspectos

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“Ora, a abertura da época balnear restringe-se, hoje, à invasão selvagem do areal e à marcação, metro a metro, do território”
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Por:António Sousa Homem

O início da época balnear constitui, em Moledo, um ritual dos meados do século XX. Segundo a minha sobrinha Maria Luísa a data mais acertada seria mesmo o século XIX, coisa que atribuo – sem mágoa – à falta de referências sobre a história pátria e à ignorância (que vem desde Eça) acerca do tempo dos nossos bisavós. Maria Luísa fica, de resto, impressionada com a repetição de rituais; tanto fica comovida como siderada nos limites da irritação.
Confrontada com a placidez geral, ela acha que "a sociedade" está apenas "desmobilizada", coisa que eu não entendo; quanto a mim, "a sociedade" está perfeitamente mobilizada: participa nas cerimónias de abertura da época balnear, festeja a chegada do Verão, despede-se de um governo e desconfia do seguinte, critica asperamente as instituições, vigia os vizinhos e gasta algum dinheiro. Isto constitui a prova mais do que evidente da "mobilização da sociedade". Não se lhe peça mais.
Ora, a abertura da época balnear restringe-se, hoje, à invasão selvagem do areal e à marcação, metro a metro, do território engalanado pelas vetustas barracas de praia, uma herança multicolor da década de sessenta. Hasteia-se uma bandeira, respira-se o aroma de bronzeador, cumprimentam-se os repetentes e os clássicos ocupantes do território.
Desde que me lembro, os primeiros feriados de Junho são parte essencial dessa cerimónia despreocupada e reservada aos que sempre consideraram que, longe das Caraíbas e dos ventos Suão e Mistral, Moledo é o centro do mundo, uma espécie de marco geodésico destinado a reviver o passado, a prolongar rituais de iniciação na idade adulta e a impedir que a história perca sentido e oportunidade.
Maria Luísa arrastou os filhos consigo, pelo areal fora; eu cheguei mais tarde, depois de passado aquele período em que a brisa matinal se confundia com um vendaval que atropelava o forte da Ínsua, de requebros azulados, românticos e indiferentes à multidão que estacionara os automóveis nos pinhais vizinhos.
Verifiquei que os vizinhos do ano passado eram os mesmos deste ano; percebi que na crista das ondas havia o mesmo reflexo prateado de festa minhota e eternamente dominical (mesmo não sendo domingo) – enfim, assumi que o mundo estava certo e conforme.
Ao princípio da tarde, o meu sobrinho Afonso declarou que iria retirar-se a fim de combater umas sardinhas que inauguravam a época. Eu sorri. A cena repete-se há mais de cinquenta anos e é sempre comovente. Eis um conservador sem arrependimento nem dor.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Os antepassados sem juízo - António Sousa Homem



Em certos aspectos
12 Junho 2011




“Um dos nossos antepassados assistiu aos últimos momentos de El-Rei D. Sancho II em Toledo”
Por:António Sousa Homem

Uma das tradições dos Homem (um conjunto notável e desorganizado de lendas, documentos, mentiras, evocações, folhas arrancadas aos nobiliários, cartas amarelecidas pelos séculos, além de hábitos de vaidade inclemente) sustenta que um dos nossos antepassados assistiu aos últimos momentos de el-Rei D. Sancho II em Toledo, na companhia de Gonçalo Anes de Portocarrero, um poeta que a península devia honrar.
Outra dessas tradições, evidentemente nunca confirmadas mas a que a Tia Benedita (a matriarca da família e garante do miguelismo de outrora) atribuiu sempre a matriz de uma verdade histórica insuspeita, foi a camaradagem que um vetusto avô do Minho manteve com São Teotónio, o padroeiro de Valença, peregrino a Jerusalém, padre Crúzio de Coimbra e conselheiro do nosso primeiro rei.
Não há sinais dessas ramificações na genealogia da pátria, mas em momentos de discussão, a academia dos Homem, reunida ao almoço dominical e pacificador de Moledo, não precisa de provas irrefutáveis nem de documentos vindos do Tombo. Basta-lhe a evidência familiar, que é sarcástica e desinteressada. Não há herói miguelista que não tenha conhecido um Homem nas faldas das serras ou nos vinhedos devastados do Minho, nem relicário do Velho Regime que não tenha uma história para contar.
Esta inclinação da família pela história dos avôs próprios ou alheios tem a ver, diz a minha sobrinha Maria Luísa, com a necessidade de não pertencer aos "tempos modernos". Pode ser. A Tia Benedita manteve até ao fim da vida inimigos invisíveis e imperecíveis, onde incluía o dr. Afonso Costa e os espectros dos liberais mais populares do Constitucionalismo, sobretudo os seus vates e demagogos. Pertencer aos "tempos modernos" foi, aliás, coisa que nunca nos mereceu grandes preocupações – embora Dona Elaine, a governanta do eremitério de Moledo, se lamente amargamente diante do velho frigorífico que há anos nos garante um sofrível refrigério.

A Dra. Celina, da biblioteca de Caminha, a quem contei estas pequenas desavenças com a nossa genealogia e os nossos electrodomésticos, afiançou-me que é assim em todo o lado. Ela vinha trazer-me uma cópia de um autor galego que menciona a Serra de Arga como um santuário do nosso Noroeste. Farto dos rochedos que guarda as Rias, e já insensível às lendas da velha Galiza obscura de Santiago e do Lugo, o historiador encantou-se com os pinhais amenos de Âncora e achou-lhes ar de nobreza antiga. Fez bem. Deve ter havido um antepassado dos Homem a confirmá-lo, nas suas ossadas do século, digamos, XIV. A Dra. Celina sorriu.

domingo, 29 de maio de 2011

O Minho feliz dos anos cinquenta - António Sousa Homem




Em certos aspectos


“Nesses anos, navegávamos pelo rio Minho num barco que só na imaginação do meu irmão Luís se assemelhava às barcaças que percorriam o Mississípi”
  •  )
Por:António Sousa Homem

Naquele Minho estival dos anos cinquenta as novidades demoravam bastante a chegar e, quando chegavam, depois de o velho Doutor Homem ter transportado a família até ao velho casarão de granitos cobertos de musgo e hera, por onde se escapava o perfume de antigas alfazemas – sempre requeridas pela Tia Benedita, a matriarca da família –, tudo tinha já passado de moda.
Moledo não era ainda o poiso regular das velhas famílias do Porto, do Norte e dos imigrados que sentiam saudade dos pinhais ou do iodo; e o iodo, por sua vez, ainda não era aquela evocação romântica das manhãs frescas e luminosas das épocas balneares, mas apenas um elemento de prescrição médica, uma espécie de aspirina útil ao bem-estar geral.
A família dividia-se, na época, entre as férias de Ponte de Lima e as férias à beira-mar; entre o repouso secular dos Homens do velho Minho campestre, orientado pelas leituras de Verão e pela revisitação ao retrato do Senhor Dom Miguel, estacionado nos corredores escuros do velho casarão – e uma passagem pelas brisas marinhas que Dona Ester, minha mãe, achava serem o colírio necessário a toda a existência e uma espécie de antídoto contra as gripes que haviam de chegar.
Só o Tio Alberto aparecia sem qualquer tipo de pontualidade, risonho e carregado de suspeitas, celibatário convertido à província. Os meus irmãos (éramos cinco) cumpriam os deveres de comparência às refeições de família – e eu, retemperado de uma segunda ou terceira adolescência (dado que a primeira não existiu), levava trabalho do escritório.
Nesses anos, navegávamos pelo rio Minho num barco que só na imaginação do meu irmão Luís se assemelhava às gigantescas barcaças que percorriam o Mississípi; grupos de deserdados da política e dos negócios, unidos pela idade e pela boa saúde, apreciavam os crepúsculos de Caminha, de Cerveira, de Âncora e de Moledo, sem saberem que seriam os últimos actores desse filme mudo e a preto e branco em que se julgava que o ‘glamour’ era uma pose desinteressada e indiferente, para a qual se disputavam óculos de sol vindos de França ou de Itália.
Nessa altura não nos preocupava a crise do crédito nem os enigmas das hipotecas, dos défices da balança de pagamento ou, sequer, a escassez de emprego. Sem sabermos, seríamos – até ao fim da vida – parte de uma classe de privilegiados que habitou em Portugal até aos anos setenta, e que podia dar-se ao luxo de ser das esquerdas ou das direitas. A vida não era difícil; era apenas medíocre, talvez, e irrisória. Os heróis, como o meu Tio Alberto, eram fugitivos e não contavam os seus segredos.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Breve elegia para o mês de Janeiro - António Sousa Homem

Praia do Moledo - Alberto Perry da Câmara


Lisboa
14º


Em certos aspectos

Breve elegia para o mês de Janeiro

“A partir de certa altura, a vida é um risco inacessível, uma espécie de passeio na falésia. Vigiamos indicadores tão vagos como a espuma das ondas (...)”
  • 09 Janeiro 2011
Por:António Sousa Homem


Entretenho-me, por vezes, a ver fotografias de Moledo nos anos trinta, quarenta e cinquenta (os anos sessenta constituem uma inexplicável quebra na minha reserva de nostalgia) – quando eu tinha a idade de apreciar Moledo por aquilo que Moledo era: um cenário de filme italiano ou francês, romântico, a preto e branco, com os velhos automóveis estacionados diante da praia. Um deles seria o de minha mãe, Dona Ester, que teria acabado de lançar os seus filhos no areal, aguardando a finíssima neblina do entardecer, tépida e rescendendo a aromas saudáveis, ao sal empurrado pelo vento, aos mistérios do iodo. 
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Quando penso nesses anos estabeleço um contraste, não com a minha idade de hoje, pouco apresentável, mas com a que marcou o início da velhice; havia, na época, problemas de hipertensão que se curavam com o cheiro da resina dos pinhais à volta das dunas, desequilíbrios respiratórios que se diluíam com o magnífico solário que o Verão dispunha entre as barracas da praia, depressões desconhecidas que não chegavam a ver a luz do dia devido ao uso da água fria que atravessa os bancos de areia e os rochedos da Ínsua. Tratava-se de uma medicina irregular e estapafúrdia, radicalmente homeopática, que não transigia com os aparelhos que hoje medem a tensão arterial, com as pílulas para desconchavos renais ou para males de fígado, ai de nós. 
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Antes de considerar – porque há factos indesmentíveis na nossa biografia médica – que a minha vida estava em risco permanente, a partir dos setenta, eu achava que era a beleza natural de Moledo que me impedia de morrer. O velho Doutor Homem, meu pai, que era um ser urbano e cosmopolita – ainda que solitário – escapava da morte refugiando-se em Ponte de Lima, onde boa parte dos seus ancestrais tinham sido enterrados, entre ciprestes frondosos e canteiros coloridos; no meu caso, olho – em busca de oxigénio – os pinhais e um resto de arvoredo minhoto, tal como Dona Ester, minha mãe, nos despejava nas praias do Minho na esperança de acumularmos saúde para os dias futuros e os tempos aziagos. 
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A partir de certa altura, a vida é um risco inacessível, uma espécie de passeio na falésia. Vigiamos indicadores tão vagos como a espuma das ondas, temos certezas tão inóspitas como a meteorologia de Inverno. Um pouco de tranquilidade assenta no calendário como uma promessa de paz. Janeiro, por isso, é um mês de pousio e de elegância. Uma vaga paragem no tempo, a partir da qual não há previsões nem dia seguinte.
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Maria Clara Roque Esteves Vitor, a Vida é um risco desde que tu foste gerado. Primeiro, o risco era interno, intrínseco à mãe e ao filho. Quando nasceste passaste a dobrar o tamanho do risco, carrega-lo sozinho ( ou nem tanto pq não és uma ilha). E, quer vás pela falésia quer viajes pela avenida ou deserto, corres riscos. Estar-se vivo é sempre um risco, mas morrer-se é uma inevitabilidade.
há 23 horas · GostoNão gosto
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Maria Clara Roque Esteves VERDADE À M de la Palice..
há 23 horas · GostoNão gosto
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Victor Nogueira Eu gosto de ler o Sousa Homem. E vi uma série na TV em que se dizia que p 1º passo para a morte é dado ao nascer. Claro que o meu nascimento, por razões que não venhem ao caso, foi uma luta para sobreviver :-)
há 23 horas ·
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Ilusionismo Quadrilátero

ILUSIONISMO
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* Victor Nogueira .
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Ele há um tempo p’ra tudo na vida
Cantando hora, minuto, segundo;
Por isso sempre existe uma saída
Enquanto nós estivermos neste mundo.
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Há um tempo para não fenecer
Há mar, sol, luar e aves com astros
Há uma hora p'ra amar ou morrer
E tempo para não se ficar de rastos.
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P'ra isso e' preciso sabedoria
Em busca dum bom momento, oportuno,
Com ar, bom vinho, pão e cantoria,
Sem se confundir a nuvem com Juno.
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1991.08.11 - SETUBAL